Considerações sobre Daniela.

E fui contando à ela, numa tarde chuvosa, aquela história que eu repetia casualmente, sobre as peripécias da minha infância. Ela estava deitada no meu colo, ouvidos atentos, como se tudo que fosse dito naquele momento fosse decisivo e mais importante do que qualquer outra coisa do mundo. Aquilo me tranqüilizava, me deixava mais à vontade para fazer minhas graças. E ela ria… ela sempre ria para mim. Primeiro o lado direito e depois o esquerdo, o sorriso dela ia se materializando até me iluminar inteira.
Teve outro dia, será que te conto?
A velocidade nunca foi meu forte mas, com o tempo, aprendi a dirigir sem que todos os carros me passassem, não que eu me incomodasse muito com isso. As mãos dela envolviam minha cintura na moto, de forma a se segurar dos solavancos, mas era mais. Eu sabia. Ela estava me protegendo, do mesmo jeito que faz, tão lindinha, quando dorme comigo. Atravessa teus braços em mim e não diz, mas eu sinto “Tô te cuidando”.
Sempre ela nas distâncias que percorro, no meu pensamento. É teu cheiro vindo maroto, com qualquer vento. E tua voz… Procuro ela entre os cabelos ruivos da avenida, e ela não está, mesmo estando. A procuro e já a achei, tempos antes..são esses quilômetros. Tristes, mas até eles: É nossa saudade estampada em cada placa, cada terminal rodoviário, cada relógio e calendário. É o tempo, novamente. Mas sei que não temo mais nada, porque estou com ela e ela me faz mais feliz do que qualquer outra. Do que sobremesa de domingo, filme bom repetido, passar em exame de motorista, descobrir que se curou da doença, ler aquele livro tão esperado, ganhar presente fora de época. Tudo isso é bom, mas nem se compara. Estar com ela é sempre o dobro, de todo o resto.
E eu que via em preto-e-branco e um céu cinza… eu que andava vendo apenas chuvas e bueiros. E caras tristes. Agora vejo tudo que existe e suas cores, em mínimos detalhes.
Ela me coloriu.

Fevereiro 25, 2010 at 2:21 pm 1 comentário

p-a-l-a-v-r-a-s

eram gritos ecoando pelas paredes, três duma cor, outra de outra. ou eu não sei o que era mesmo sabendo.
faltava um tanto, que vi partir, exatamente.
era dor, era dor branca, mas era dor. atravessava meu tórax e trazia para dentro de mim, pra passear no estômago, aquelas velhas borboletas.
da dor que é boa porque me lembra, porque comprova, porque aceita, porque coexiste com o contrário sendo menor. só é dor porque sou feliz.
quantas palavras, p-a-l-a-v-r-a-s. mais fortes e concretas do que qualquer muro bem construído por aí. suas letrinhas pela minha janela, muito mais, pensamentos, vontade, você-essência, eu-inteira e nós-espera; tuas frases dão em mim um livro todo que eu leio e não me canso, porque não tem fim.
e mesmo elas, dicionário inteiro, tão inexato em suas definições-catástrofe. indecifra o que sinto, mesmo quando tento. e como tentamos!

será que é porque te amo? e é amor? não, é bem mais.

Fevereiro 9, 2010 at 1:10 am 1 comentário

quanta poesia em viver.

há um poeta em cada esquina.
uma história a ser desvendada, um mistério, um romance cheio de dramas.
há personagens a minha volta, desempenhando seus papéis tão bem tramados enquanto sou platéia.
e tanta vida, alegria e desespero, pro tempero desses dias vis. alegorias, acessórios, fantasias, completando o faceiro descobrimento de mim.
há um palco em cada praça e um palhaço dentro da gente que ri. ri do relógio, do tropeço, da pipoca, das palavras.
e fugindo em cada um, um leão pronto pra rugir.
há poesia nessas estradas do fim de tarde, onde corremos nossos pés através das rodas e o pensamento voa longe.
são lembranças essas vaquinhas pastando na montanha, meio tortinho.
e nas paredes dessas casas abandonadas pelo tempo, roubando frutas das manhãs iluminadas pra pescar.
e há metáforas, ensaios, adjetivos, palavras de menos e esperas demais.

Novembro 24, 2009 at 11:06 pm 1 comentário

te amarei pra sempre

e era preciso ver pra crer, ler todas as mensagens, ler tudo que nós éramos, saber, o que nós somos.
e eram tantas palavras, tantas ao vento, nem maiores nem menores do que as de agora.
minto,sempre serão menores do que as de hoje.
é preciso acreditar nisso. acreditar nos verões, acreditar nesse sentimento que existe em nós no exato instante em que penso tudo isso.
ver todas aquelas fotos, olhar suas fotos, olhar essas desalianças.
era preciso. tão dolorido quanto preciso. encarar os fatos, não mudar as idéias, aceitar o passado e nossos desamores.
e ter medo: se acabou tanto amor que era sincero, esse também vai acabar?
mas nessa hora, nesses instantes de pouco tempo, sinto que proclamo o que chamamos de agora. a estrada tão bonita que me junto a você.
___________________________
e eu te amarei pra sempre.

Novembro 15, 2009 at 9:48 pm Publicar um comentário

sobre 17 e o mundo ao meus pés

eu tinha 17 anos e escrevia coisas lindas, e tinha todo um mundo e tinha tantas dúvidas. eu tinha 17 e não sabia que tinha, achava que era sempre mais ou sempre menos, nunca tão ímpar, tão antecessor.
mas queria coisas parecidas, pois ainda era eu, só que agora eu quero tudo e mais cinco anos.
eu tinha 17 e fazia rimas, e gostava de los hermanos mais que hoje e conhecia menos música que hoje.

seriados que não existiam, meu diploma não existia, esse computador não existia, essa frase muito menos.
e existiam outras coisas que ainda existem mas não lembro mais.

eu tinha 17 e isso me traz nostalgia mas não me trás vontade de voltar.
sei que cada dia para frente é um dia a menos para mim, nesse contador de lorotas.
mas sei também que cada dia que vivo é um presente.

quando eu tinha 17 eu talvez não pensasse assim, mas agora penso.

mesmo sendo eu, sou eu, só que anos depois.
hoje sou mais feliz.

Novembro 2, 2009 at 9:05 pm 1 comentário

Em branco.

e como escrever? poesias são tristes?
são eles os poetas, todos os solitários nos bancos da praça?!

é meu  sono, é o sonho, é o sentido, é o sentimento.
mas que, quando saio na rua, os carros são mais coloridos, as ruas mais alegres e as pessoas riem pra mim.

é tudo paisagem pré-fabricada no meu mundo interno,
mas é tudo tão real.

 

Outubro 31, 2009 at 1:37 am 1 comentário

Será que é amor?

A palavra ‘amor’ é uma metáfora,
o que eu te sinto não tem nome.

Usaria muitos sotaques, com a cabeça no teu colo, para ler as palavras desse livro de sonhos. E seria mais um dia, dentre tantos, nessa nave.
Você me falando com paixão e tristeza, da Terra, da guerras, da desigualdade, de injustiças, da corrupção, do efeito estufa, da globalização, do caos, do universo em expansão, do pré-conceito, do pós-conceito, da igualdade, da economia, das estrelas, do comércio, do capitalismo  e de tudo mais que fosse digno. Filosofaríamos no sofá por horas, entre alguns risos e muitos beijos. Depois colocaríamos aquele nosso filme. Sabe, gatinha? Ele que não existe hoje mas saberemos as falas todinhas depois de amanhã.
Você faria nossa janta e eu te abraçaria apertadinho. “Me deixa concentrar” E quanto mais você falasse, mais beijaria teu pescoço, boca, pele, tudo…ai ai que lindo.
Conheceria teu sorriso décor, aquele tracinho tão marcante que você tem, o tom exato da tua pele, dos olhos (depois de ver de perto muitas vezes) e, mesmo longe, no ônibus, na rua, na poesia, no segundo, um vento me traria o seu cheiro. Seria meu aquele sorriso de mundo.
Passaria com você dias inteiros e noites em claro. Para minutos de muita conversa e outros de adoráveis silêncio, onde apenas nossas respirações in-constantes existiriam  em nós.
Os prefixos verdadeiros, muito além do telefone, soariam inevitáveis e  inexplicáveis. Só o impossível ficaria proibido.
Já posso sentir o barulho da chuva que, com você, se tornaria mágico. E sua voz, junto com a minha, seria o tom diferente e bonito que eu passaria a escutar nossas canções.

Ah, o tempo. Sempre ele. Aquele que te fez, hora exata, cruzar meu caminho. Aquele que te formou tão linda, interessante e de encaixe para mim. Aquele que criou a fábrica de onde viemos. Tempo cruel. Tempo encanto. Tempo ironia. Tempo condicional. Tempo que hoje corre contra nós pra depois correr ao nosso favor.
Tempo-paciência. Se te espero? Te espero desde muito tempo.
O que falta agora é pouco.

E nesse dia o céu vai surgir de um azul tão belo
e o nosso futuro do pretérito
vai virar meu presente perfeito.

Outubro 21, 2009 at 11:29 pm 4 comentários

Quem é você?

Quem é você que me espera?

Outubro 20, 2009 at 1:40 am Publicar um comentário

tudo pra não falar de você;

para escrever muita coisa, em sentimentos tão estranhos
é pouca hora como se fosse muita.

não falo sobre  tempo, esse esquisito. falo sobre mim mais…
e ainda, tudo o que deixo
a deriva, as entrelinhas

é resto do texto que fica em branco.

Outubro 14, 2009 at 3:02 am Publicar um comentário

A primeira…

Do primeiro momento via-se apenas uma escadaria. Do tipo? Qualquer…nem é o foco principal desse relato. É, amigo, do jeito que as coisas vão… As escadarias. E eu olhando como alguém inconformado. Esperando, talvez, a mudança, o momento tal. O sol rachando minha cabeça. E ela veio, literalmente. Me posicionei entre o incomodo e o extase. Do ângulo que estava eu a via em fases. Os pés. Penso nessa hora que tu já vai imaginar até as fivelas, o salto agulha, a delicadeza. Mas não, longe disso… A menina que vos falo, começa com um coturno invocado e ela desceu tão rápido que se eu fosse contar assim perderia toda a chance de explicar o porquê do encanto. Câmera lenta pra esse texto. Diretor. Por favor. Só no primeiro contato: Determinação, tudo que eu não tinha, não tenho, nunca tive. Esse passo, corrido, quanta história teria. Rebelde em casa? Talvez tivesse batido a porta antes de sair. Quisesse castigando o chão pisando duro, por esse mundo. Filiasse a algum grupo secreto contra o governo. Milhões de saídas, milhões de respostas…mas onde estávamos? Foi aparecendo as pernas, expostas por estar de saia. Pele clarinha, pedindo um bronzeado no fim da semana. É óbvio que, parando para pensar, esse tipo de menina não acha graça no fútil de pegar uma cor. A saia negra, rodada. Olhei pro sol, de rachar mesmo, mas ela desafiava até o tempo. Peço pausa. Reforço a memória só pra te contar das pessoas ao redor: Um casal tomando sorvete e no meio daquela briguinhas casuais de namoro adolescente. A menina? Para eles nem ao menos existiu; Do outro lado, outros pés, num all star vermelho acompanhando o jeans desbotado. Dois degraus abaixo de onde paralizamos minha menina. Pelo jeito, parecia ser um universitário, não sei dizer se ele reparou em alguma coisa mas suas mãos pareceram impacientes com o movimento ao redor; Crianças jogavam bola ao pé da escadaria, perdidas na inocência, graças a Deus! Por último, um grupo de pobre meninas ricas, seus cochichos entre si me revelavam inveja. Acho que por aquela garota abraçar o mundo com as mãos. Continuemos. Vieram os braços. Pulseiras negras, rebeldes como a dona, espinhos de metal. Agressivo, surreal. Até que vi sua cintura, magra decidida, sua metade. E foi descendo e eu a subindo. Quase um espartilho, escuro, marcando os seios nem pequenos nem grandes mas perfeitos, rígidos como o todo. A parte mais importante, caro amigo. Senti arrepiar meus braços, tremer meu corpo, faltou-me ar. Eis o primeiro contato com o rosto, o que me fez saber quem era e não saber. Agora eu sabia a fisionomia, o que sabia mais? O queixo firme, a boca fechada, os lábios chamativos (vermelhos sem batom), bochechas, sardas. Eu estava a ponto de chorar. Sei, parece estupidez, mas uma magia tão forte me tomou que eu tive a sensação de ter descoberto um continente. Cabelos nos ombros, castanho claro como os olhos. Olhos quase-quase-puxados. Quase-quase japonesa, com um jeito espanhol, uma seriedade francesa, traços italianos, uma mistura brasileira. Só pra enlouquecer. Devia ter seus dezesseis anos, no máximo. Veja só, nem responsável ainda. Teoricamente. E assim foi. Ela passou por mim, me encarou. A encarei de volta e fim. Ah, queria até descrever, mas quando nossos olhares se cruzaram ela me domou, danada, soube tudo sobre mim. E eu tive vontade de correr atrás, inventar uma desculpa e protege-la. (Que essa máscara de controle eu conheço bem, mas, por dentro, a gente fica querendo um abraço…) Eu? Dezoito anos…deveria estar lendo o livro que levei pra ler, fazendo o que fiquei de fazer. Uma menina. Ela? Não, não…eu também. Era uma menina observando outra, apaixonada. Agora, meu amigo, você pode até não entender, como os namorados, o universitário, o sorveteiro que não falei, toda a praça. Na verdade, naquele momento (e já vão anos…) foi que eu soube de mim. Uma menina, e daí? Fiquei pasma e também quis saber o porquê. Tantas outras viriam depois e nisso eu acostumando com a idéia de ser diferente. Diferente? Bem, nasci num mundo e tenho que conviver com suas regras. A gente vai mudando aos poucos. Mas minha menina foi a primeira. Quis beijá-la. Se ela quis? Não sei nem vou saber. Mas aconteceu, num puta sol de rachar a cuca pensante, eu descobri quem eu seria. _________________________________________________________________________________________

(para todas as meninas que eu amei, cativei, enlouqueci, me enlouqueceram. e para as outras que ainda hão de vir)

Outubro 9, 2009 at 12:06 am 1 comentário

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