Archive for Fevereiro, 2010
Considerações sobre Daniela.
E fui contando à ela, numa tarde chuvosa, aquela história que eu repetia casualmente, sobre as peripécias da minha infância. Ela estava deitada no meu colo, ouvidos atentos, como se tudo que fosse dito naquele momento fosse decisivo e mais importante do que qualquer outra coisa do mundo. Aquilo me tranqüilizava, me deixava mais à vontade para fazer minhas graças. E ela ria… ela sempre ria para mim. Primeiro o lado direito e depois o esquerdo, o sorriso dela ia se materializando até me iluminar inteira.
Teve outro dia, será que te conto?
A velocidade nunca foi meu forte mas, com o tempo, aprendi a dirigir sem que todos os carros me passassem, não que eu me incomodasse muito com isso. As mãos dela envolviam minha cintura na moto, de forma a se segurar dos solavancos, mas era mais. Eu sabia. Ela estava me protegendo, do mesmo jeito que faz, tão lindinha, quando dorme comigo. Atravessa teus braços em mim e não diz, mas eu sinto “Tô te cuidando”.
Sempre ela nas distâncias que percorro, no meu pensamento. É teu cheiro vindo maroto, com qualquer vento. E tua voz… Procuro ela entre os cabelos ruivos da avenida, e ela não está, mesmo estando. A procuro e já a achei, tempos antes..são esses quilômetros. Tristes, mas até eles: É nossa saudade estampada em cada placa, cada terminal rodoviário, cada relógio e calendário. É o tempo, novamente. Mas sei que não temo mais nada, porque estou com ela e ela me faz mais feliz do que qualquer outra. Do que sobremesa de domingo, filme bom repetido, passar em exame de motorista, descobrir que se curou da doença, ler aquele livro tão esperado, ganhar presente fora de época. Tudo isso é bom, mas nem se compara. Estar com ela é sempre o dobro, de todo o resto.
E eu que via em preto-e-branco e um céu cinza… eu que andava vendo apenas chuvas e bueiros. E caras tristes. Agora vejo tudo que existe e suas cores, em mínimos detalhes.
Ela me coloriu.
p-a-l-a-v-r-a-s
eram gritos ecoando pelas paredes, três duma cor, outra de outra. ou eu não sei o que era mesmo sabendo.
faltava um tanto, que vi partir, exatamente.
era dor, era dor branca, mas era dor. atravessava meu tórax e trazia para dentro de mim, pra passear no estômago, aquelas velhas borboletas.
da dor que é boa porque me lembra, porque comprova, porque aceita, porque coexiste com o contrário sendo menor. só é dor porque sou feliz.
quantas palavras, p-a-l-a-v-r-a-s. mais fortes e concretas do que qualquer muro bem construído por aí. suas letrinhas pela minha janela, muito mais, pensamentos, vontade, você-essência, eu-inteira e nós-espera; tuas frases dão em mim um livro todo que eu leio e não me canso, porque não tem fim.
e mesmo elas, dicionário inteiro, tão inexato em suas definições-catástrofe. indecifra o que sinto, mesmo quando tento. e como tentamos!
será que é porque te amo? e é amor? não, é bem mais.